O perdido da Lapa (Por Maria Eduarda)
"Cheguei em casa ao anoitecer, pendurei o chapéu no guarda casacos perto da porta. Um cheiro de feijão escapava da cozinha. Passeando de um lado ao outro, pude ver sua saia pela porta aberta. Laura cantarolava uma música do Erasmo mais alto que o rádio. Entrei com os olhos cansados, a alma lavada e a voz dissipada. Laura me viu, me sorriu, me despiu com o olhar. Caminhei em sua direção, tirei-lhe o pano de prato das mãos e tomei-as pra mim, inundando todo o meu eu com o transbordar de seus olhos. No seu penteado bem feito, sorriso sem jeito, perfume perfeito, transparecia a calmaria do mar de domingo. Laura era irreal. O espectro da minha poesia. Juntei partes de mim e de todas as mulheres com quem já andei para preencher o vazio da minha casa. O cheiro de feijão substituía o cheiro de mofo que as paredes exalavam. O sorriso de Laura nada mais era que o meu próprio, refletido nos vidros do armário de copos. Os olhos de mar eram a mistura de dezenas de olhares femininos que me c...